Sp, oportunidade perdida

22 Sep 2014 - São Paulo

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O debate sobre as novas faixas exclusivas para bicicletas que estão sendo implementadas na cidade de São Paulo no último mês tomou ares de guerra. Muitos contra, com argumentos que variam desde o egoísta “eu pago o IPVA” até “não somos a Europa”; e muitos a favor, com argumentos que vão desde o tacanho “quero ver os coxinhas suarem” até o mais inteligente “diminui a poluição”. Só não vi um debate tomar as redes sociais: o da exploração desse novo, rentável e dinâmico mercado, o mercado das bibicletas.

Os dados do Canadá, país sede da empresa que comprou, em 2013, 70% da brasileiríssima Caloi, são bonitos de se ver: $270.2 milhões, só no primeiro semestre de 2014 (achei aqui). A empresa Dorel, em manobra inteligente, vai montar no Brasil bikes de outras marcas, tudo pra burlar o protecionismo brasileiro, fruto do medo que veio com o salto de importações que o setor experimentou em 2012.

Aqui no Brasil a tributação sobre a bike importada pode chegar a 70% do preço, semelhante ao que acontece com computadores. Os preços são altos demais, mas a demanda é alta também. Especialistas afirmam que o mercado é enorme, mas precisa se modernizar para competir. E o tributo sobre a bike nacional também é abusivo, podendo chegar a 40% do valor. Ou seja…

Agora armazene essa informação para juntar com mais duas a seguir:

1: Na Europa a venda de bikes já supera a de carros desde 2012. (Não achei dados sobre venda de bikes no Brasil, mas quem achar faz o update aqui, pfavô!)

2: As dez maiores marcas de bicicletas do mundo vem da Europa e Canadá, com uma ou duas dos Estados Unidos.

O mercadin envolvido é enorme e oferece uma pitada da tão sonhada inovação: as bicicletas precisam ficar mais leves e confortáveis, além de baratas e duradouras, resistentes às intempéries, além de cada vez mais intercambiáveis, desmontáveis e inteligentes.

Há quem diga que o mercado para bikes elétricas em 2020 vai chegar na casa dos 11 bilhões (uou!). Hoje em dia é de 8.4 bilhões. Não é à toa, nem por bondade pura que os Rockefeller estão meio que… vazando do “mercado de poluentes” pra apostar em outros caminhos menos danosos ao meio ambiente. Enquanto estamos aqui brincando de achar que bike é coisa de adolescente leite-com-pêra na paulista, os chineses com sua agilidade escravista já começam a produzir pra exportar, geralmente com minério que compram do Brasil.

Sem mais xurumelas, me pego pensando na quantidade de dinheiro que poderia circular por novas mãos, responsáveis por dar manutenção nas bikes, guarda-las em locais seguros enquanto as pessoas trabalham, oferecer locais para alimentação e banho de ciclistas, acessórios de segurança, vestimenta, calçados, medição de saúde (como estes que medem batimentos cardíacos e tal), ferramentas e até mapas, manuais e aplicativos que ajudem o ciclista a ciclistar.

Ainda teria o bônus de dar aquela reavivada na indústria de montagem de carros. Se os metalúrgicos podem soldar peças de automóveis e motos da gringa, também poderiam fazer isso por bikes.

O Brasil está perdendo o bonde de inventar a produção nacional de bikes. Está fazendo como fez com computadores: deixando a galera invadir. Apesar do alto valor do imposto, quase nada é feito no sentido de formar engenheiros, designers e outros profissionais envolvidos na indústria da Bike. Ainda há muito a explorar. Enquanto a China vem, poderíamos estar montando pequenos centros de excelência na produção de bikes dentro de montadoras.. Eu sei lá qual o arranjo. Mas eu compraria uma bike brasileira se fosse do nível da Cannondale ou Scott.

Além disso o mercado que acompanha a formação de ciclovias é muito mais dinâmico e distribuído do que o que existe hoje. Achei na padaria do meu bairro, noutro dia, um folheto da associação sei-lá-o-que reclamando que carga e descarga já era. E que as oficinas teriam que fechar porque não dava mais pra colocar os carros ao longo da via pra vender. Sinceramente? Acho que eu iria comprar mais coisas no bairro se, no lugar de lava-jatos, oficinas mecânicas e depósitos de material de construção eu pudesse descer com minha bike para tomar um suco e comer um sanduba com meu filho (além de parar para encher o pneu da bike). Até porque eu não tenho carro pra lavar nem estou construindo nada. Mas ok, já passei pro argumento pessoal aqui, quando disse que queria comer um sanduba. Deve ser a fome…

Enfim: quem é contra ciclovias não está sendo contra o prefeito do petê. Está indo contra uma oportunidade grande de desenvolver uma área promissora. Está sendo birrento e ultrapassado, e a esses eu digo: siga a tendência, seja como os Rockefeller!

Já a você ciclista, que precisa estar aí pra defender as ciclovias quando começarem a falar do IPVA, cite números. Em dólares, de preferência. Assim quem sabe a cidade “que sustenta o Brasil” enxerga mais do que um palmo à frente do farol :-p

obs: aqui uma série legal de links para quem quiser se aprofundar nos dados sobre o mercado de bikes: